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O Crescimento ou desaceleração da China: como o Brasil pode lucrar?




O jornal "O Globo" do último domingo anunciou a instalação de uma China Town em São Paulo, com um aporte de R$ 150 milhões, em outras palavras, os paulistas irão ver o surgimento de um novo bairro da Liberdade (tradicional pela presença de japoneses). Mas o que isso quer dizer? Novos negócios e estabelecimentos serão criados, mais migrantes poderão vir e ter vidas melhores; um ciclo econômico será reforçado e remodelado, além do fato de que divisas serão geradas. O Dragão Chinês irá ficar maior. Outro aspecto que foi abordado é que a nova geração de chineses que está migrando para o Brasil não quer mais ser somente "dona de pastelarias"; eles querem abrir novos negócios, promover business e trazer o modelo de sucesso chinês para Brasil.


A China tradicional está tornando-se diversificada dentro e fora de suas fronteiras. Novos polos industriais estão surgindo em suas províncias, entre eles a empresa Build Your Dreams (BYD), localizada na moderna metrópole de Shenzhen, próxima a Hong Kong, outro polo de tecnologia e de modernidade da China. A China possui grupos bilionários em distintos segmentos econômicos: China Life Insurance (seguros), China Shenhua Energy (energia renovável), Saic Motor (automotivos), China railway Group (construção) e a Baoshan Iron & Steel (siderurgia) e muitas outras.


O leitor deve estar se perguntando o porquê de termos mencionado a BYD. A BYD é uma empresa de 240 mil empregados, que surgiu como uma desenvolvedora de bateria de celulares e evoluiu para painéis solares, eletroeletrônicos, carros elétricos e monotrilhos. No Brasil, a BYD está localizada em Manaus, tradicional polo de desenvolvimento de negócios, por intermédio da Zona Franca de Manaus, e produz baterias e outros componentes. O ex-Prefeito Olímpico Eduardo Paes é CEO da empresa para América Latina e Caribe e tem buscado promover o crescimento dessa cooperação sino-brasileira desde 2016. Políticas a parte, não seria interessante e ecologicamente mais responsável o brasileiro ter um carro elétrico e poder dirigir sem preocupação com a poluição? O Brasil pode e deve adotar essa tecnologia. Essa é uma questão já presente no município de São José dos Campos, no interior de São Paulo, que já adotou o sistema compartilhado de carros elétricos, por meio da empresa BeepBeep.


Mas voltando ao título da matéria: "crescimento e desaceleração da China, como o Brasil pode lucrar?" A produção industrial chinesa aumentou no segundo semestre de 2019, assim como as vendas no varejo. Os investimentos nos ativos fixos ampliaram em relação aos anos anteriores. Novas parcerias dentro e fora da Ásia foram patrocinadas.


Cabe ressaltar, contudo, que a China não é só crescimento. Apesar de ter sido o menor ritmo em 27 anos, o PIB chinês de largos passos a 6,2% em 2019 é uma preocupação para o governo de Xi Jiping. O crescimento chinês, nos últimos anos, desacelerou, tendo em consideração que a demanda interna e a externa enfraqueceram por causa da disputa comercial com os Estados Unidos. A série de sanções e de embargos a produtos e empresas chinesas pelos Norte-Americanos, somada a instabilidades políticas e econômicas oriundas do Oriente Médio reduziram as margens de 6,5% previstas pelo governo chinês, afinal 0,3% de trilhões rondam as casas dos muitos e muitos zeros. Essa desaceleração resultante do embate econômico entre Pequim e Washington pode ser vista como ruim para alguns especialistas; todavia para outros é considerada uma oportunidade para os países emergentes como o Brasil.


Empresas dos mais variados setores - de chips e baterias a tratores e carros - são impactadas com as guerras tarifárias, principalmente o aço brasileiro que chegou a tremer com um possível embargo do governo Trump. Nesse contexto, o governo Bolsonaro, em missão comercial à China, fechou acordos comerciais para a venda da commoditie brasileira ao maior mercado asiático. Por outro lado, gigantes como a Intel Corp, Fiat Chrysler, GM, Ford e outras somaram prejuízos de algumas dezenas de bilhões de dólares. Mas como o mundo dos negócios é uma balança em equilíbrio, se de um lado grupos perdem, do outro há quem lucre. E, neste cenário, a gigante do aço Norte Americano, a Nucor foi uma das grandes beneficiadas diante do aço brasileiro, no mercado interno de Donald Trump. A JBS, empresa brasileira que é a maior processadora de carnes do mundo, ampliou suas exportações de carne diante dos embates entre China e EUA.


Empresas Norte Americanas estão proibidas de comercializar com a gigante Huawei e com outros grupos chineses, o que é uma oportunidade para as empresas brasileiras que querem desenvolver tecnologias de painéis solares, chips, transmissores e outros componentes de alta tecnologia.


Desde 2018, as exportações brasileiras cresceram em 35% em relação aos anos anteriores, gerando uma balança comercial anual positiva na casa dos U$ 30 bilhões. Ficou mais caro para Pequim comprar de Washington e vice versa, entretanto ficou mais barato comprar produtos brasileiros que surgiram como alternativa para os dois gigantes players.


O setor brasileiro que mais se beneficiou foi o agronegócio. Ainda não se sabem quais serão os resultados ao longo prazo, porém podemos afirmar que um eventual cessar fogo entre as duas potências será nocivo ao mercado brasileiro, por causa dos benefícios agrícolas concedidos entre os dois gigantes. O mercado de autopeças e de máquinas brasileiros é outro setor que se beneficiou, já que os americanos deixaram de comprar os componentes chineses, ao passo que estes produtos podem ser empurrados ao mercado latino e gerar forte competição com a indústria nacional.


Essa guerra comercial é imprevisível e é uma aposta arriscada em que o Brasil tem obtido lucros. Será que as empresas nacionais irão conseguir ocupar os vácuos deixados pelos chineses nos EUA? Será que conseguiremos atender a todas as demandas de Pequim? O Brasil será obrigado a adotar uma ou outra posição? Se a guerra comercial se prolongar é possível que haja uma recessão em escala global? Esta é uma reflexão que será deixada a você, caro leitor.


Vitor Monteiro

Assessor de Assuntos e de Negócios Internacionais da Casa do Brasil

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